Dra. Anabela Ribeirinho
Dra. Anabela Ribeirinho
Cédula: 58495P
Ver na Ordem dos Advogados

Lesões graves: proposta da seguradora, alta clínica e danos futuros

Em lesões graves, uma proposta pode surgir quando ainda existe evolução clínica, necessidade de tratamentos adicionais, dúvidas sobre sequelas ou despesas futuras por apurar. Esta página centra-se nos elementos que costumam exigir leitura mais cautelosa antes de aceitar qualquer acordo.

Se a dúvida principal for uma proposta antes da alta médica sem foco especial em sequelas graves, veja também a página geral sobre proposta antes da alta médica. Para contexto mais amplo sobre prova e categorias de dano, veja a página sobre lesões graves após acidente de viação. Se a discussão passar por avaliação médico-legal, pode também ser útil consultar o guia sobre o Instituto de Medicina Legal em acidentes.

Informação geral — não substitui consulta jurídica.

Contexto estatístico (UE)

Em 2024, registaram-se cerca de 19 940 mortes nas estradas da UE (menos 2% face a 2023). A média da UE foi de 44 mortes por milhão de habitantes; em Portugal, o valor indicado foi de 58 por milhão.

Nos dados por perfil de risco (2023), os homens representaram 77% das mortes rodoviárias; pessoas com 65+ anos, 31% (sendo 21% da população); e jovens de 18–24 anos, 12% (sendo 7% da população).

Fonte: Parlamento Europeu — Estatísticas sobre mortes no trânsito na UE (atualização de 05-11-2025). Dados de base de 2024 publicados pela Comissão Europeia: Road safety statistics 2024.

Antes de aceitar: pontos que costumam exigir cautela

Ao receber uma proposta ou pedido de acordo, costuma ser útil confirmar se a proposta de indemnização por dano corporal identifica com clareza o que está incluído, o que fica excluído e que base documental sustenta o valor apresentado.

  • Se estão consideradas todas as despesas (atuais e previsíveis quando justificadas)
  • Se há consideração de perdas de rendimentos / impacto laboral
  • Se o quadro clínico e sequelas estão corretamente descritos (não só o diagnóstico)
  • Se os danos não patrimoniais foram ponderados quando a gravidade o justifica
  • Se a seguradora aplicou critérios orientadores de proposta razoável (quando aplicável)
  • Se já existe consolidação clínica ou se ainda faltam tratamentos, reabilitação, próteses, adaptações ou assistência futura por apurar
  • Se a avaliação funcional, a perícia médico-legal ou eventual intervenção do INMLCF ainda podem alterar a leitura do caso

O que é uma proposta razoável para indemnização do dano corporal?

Em termos gerais, a proposta razoável é a posição da seguradora depois de analisar a responsabilidade pelo acidente, os danos corporais alegados e a documentação então disponível. O ponto decisivo não é apenas o valor global, mas perceber se a proposta cobre as rubricas relevantes do caso concreto e se foi apresentada num momento clinicamente adequado.

O que convém pedir por escrito

  • Memória de cálculo ou discriminação das rubricas consideradas.
  • Indicação do período de incapacidade temporária usado.
  • Referência a sequelas, incapacidade permanente e dano biológico, quando aplicável.
  • Tratamento dado a despesas médicas, deslocações, perda de rendimentos e danos não patrimoniais.
  • Texto exato de quitação ou acordo final antes de qualquer assinatura.

Enquadramento legal que costuma ser relevante

DL n.º 291/2007

O regime do seguro obrigatório automóvel e da regularização do sinistro encontra-se no DL n.º 291/2007 (ver art.º 36.º).

Portaria n.º 377/2008

Para danos corporais, a Portaria n.º 377/2008 define critérios e valores orientadores para a “proposta razoável”, sem excluir outros danos ou valores superiores quando legalmente devidos.

Princípio geral

Em termos gerais, a obrigação de indemnizar visa repor a situação sem o evento danoso (ver Código Civil, arts. 562.º‑566.º).

Referência adicional: DL 352/2007 (Tabela Nacional de Incapacidades).

Resposta à seguradora quando o quadro ainda não estabilizou

Quando ainda não existe alta médica, quando persistem dores, limitações ou tratamentos em curso, pode ser prudente responder por escrito e pedir clarificação da memória de cálculo antes de aceitar qualquer valor global.

  • Pedido formal de esclarecimentos (base factual e médica)
  • Pedido de memória de cálculo e discriminação das rubricas do dano corporal
  • Envio/organização de documentos em falta (despesas, relatórios, rendimentos)
  • Síntese do impacto funcional (atividades diárias e profissionais)
  • Definição de pontos controvertidos para prova, perícia ou avaliação médico-legal
  • Identificação de danos futuros ainda não estabilizados: ajudas técnicas, assistência de terceiros, reabilitação, adaptações e ciclos de substituição

Em lesões graves, pequenas omissões documentais ou uma proposta lida antes da estabilização clínica podem alterar de forma relevante a análise do caso.

Prazos — nota curta e prudente

Regra geral, o direito de indemnização prescreve em 3 anos desde o conhecimento do direito.

Em casos concretos pode haver nuances (ex.: datas relevantes, conhecimento efetivo, interrupções/suspensões) — por isso vale a pena agir cedo.

Se quiser, consulte o nosso guia de prazos após acidente de viação.

Documentos que costumam ajudar a ler a proposta com cautela

Lista prática do que normalmente ajuda a rever uma proposta da seguradora em contexto de lesões graves.

  • Proposta/carta/email da seguradora
  • Participação/auto/declaração amigável
  • Relatórios médicos + exames + altas/atestados
  • Despesas (faturas) + deslocações
  • Prova de rendimentos e impacto profissional
  • Fotos e contactos de testemunhas
  • Documentação sobre reabilitação, ajudas técnicas, futuras intervenções, adaptações ou assistência de terceiros

Nota: o envio de documentos deve respeitar confidencialidade e a finalidade. A análise depende do caso concreto.

Formulário institucional

Se pretender enviar uma mensagem institucional ou facultar elementos do processo, utilize este formulário. A análise depende do estado clínico, da documentação já reunida e da própria proposta recebida.

Informação geral — não substitui consulta jurídica.

Tom e compromisso

Prestamos informação jurídica e acompanhamento na análise de propostas e na estruturação de prova em sinistros com lesões. Cada caso depende dos seus factos, da prova disponível e da evolução clínica.

Perguntas frequentes sobre propostas em lesões graves

Se eu aceitar a proposta, posso reclamar mais tarde?

Depende do que for assinado e do enquadramento do caso. Antes de aceitar, é prudente esclarecer o alcance do acordo.

Faz sentido analisar uma proposta antes da consolidação clínica?

Em muitos casos, a leitura deve ser cautelosa quando ainda há tratamentos, incerteza sobre sequelas, necessidade futura de assistência ou avaliação funcional por estabilizar.

O INMLCF ou outra perícia médica pode ser relevante?

Pode ser relevante quando a discussão depende da avaliação das sequelas, da incapacidade, da consolidação clínica ou da necessidade de cuidados e ajudas futuras.

Os seus dados estão protegidos

Tratamos os seus dados pessoais com total confidencialidade e em conformidade com o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD). As informações fornecidas são utilizadas exclusivamente para análise do seu caso e comunicação relacionada. Para mais informações, consulte a nossa Política de Privacidade.